Como dignificar o trabalho na era digital

Carlos Costa Gomes, docente e investigador do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, participou no XVII Congresso Nacional – Como Dignificar o Trabalho na Era Digital - da LOC/MTC, realizado em Fátima, 9 de Junho.

O docente começou por questionar se devemos aceitar ou preferir a tecnologia (IA) face à humanidade? Na resposta a esta questão afirmou que o que nos torna humanos não é o matemático, nem mesmo o químico ou o biológico. Mas o que nos envolve. Isto é, o que passa despercebido, o indizível, autoconsciência, o efémero, e o não objetivável. Esta é a essência humana que temos que preservar, mesmo que desajeitada, complicada, lenta, arriscada ou insuficiente quando comparada com máquinas e com a IA. Podemos até tentar corrigir e reparar mas será imprudente automatizar, programar e atualizar, na medida em erradicamos, por esta via, o que faz de nós seres humanos.

O problema e o desafio principal para dignificar o trabalho humano e o homem, não é tanto a aniquilação da humanidade pela tecnologia, mas antes evitar que o ser humano começar a preferir as boas simulações fornecidas pelas máquinas em detrimento da própria realidade, com por exemplo: conversar com os nossos assistentes digitais? Comer comida impressa em 3D? Viajar por mundos virtuais? Serviços personalizados nas nossas casas inteligentes por drones? Servidos por robôs? Sistemas que a partir da realidade aumentada e virtual amplifiquem os sentidos humanos?

Seremos ainda ser humanos se começarmos a preferir (RA RV) o mundo desta forma, à semelhança das redes sociais? Será que poderemos vir a ser demitidos se recusarmos trabalhar no mundo de realidade virtual?

A filosofia argumenta que nunca podemos efetivamente captar, reter ou reproduzir o que realmente interessa. Se isto é verdade, como poderemos esperar captar algum tipo de humanidade simulada a partir de uma máquina inteligente? O negócio de substituir experiências intrinsecamente humanas por algoritmos e IA que prometem capacidades divinas, irá ser enorme, mas será isso uma mais-valia para o ser humano. Devemos entregar de mão beijada o nosso futuro àqueles que o querem transformar num sistema operativo?

Se quisermos dominar o confronto entre a robotização e a Humanidade teremos de usar as regras básicas: ser exigentes mas compreensíveis para não impedir o progresso. Por isso é preciso Ver acontecer, é necessário Julgar e é indispensável Agir e melhorar a nossa compreensão da exponencialidade da tecnologia e o que representa para o futuro da humanidade. Temos que aprender a imaginar as mudanças e depois a viver com as mudanças.

Como dignificar o trabalho na era digital? A resposta passa por nos tornar melhores gestores da humanidade. Qualquer um de nós - um trabalhador, um líder empresarial ou qualquer político na sua condição representante público -, tem de aceitar esta tarefa e agir com responsabilidade em moldar o futuro da humanidade. A tecnologia sem ética condena a sociedade; temos que agir para impedir que as tecnologias passem de bestiais a bestas, de forma a alcançar o justo meio de Aristóteles; temos que agir de forma a exigir dos que inventam e investem nas novas tecnologias ofereçam formas mais eficazes para reduzir ou limitar consequências indesejadas; temos que agir para que a tecnologia e a humanidade devam fazer parte dos planos de estudos da mesma sala de aula; para dignificar o trabalho temos que preservar uma clara distinção entre o que é real e o que é cópia ou simulação.

Qual o papel das organizações neste novo tempo? Devem avaliar e julgar se esta tecnologia vai diminuir a humanidade; avaliar e julgar se esta tecnologia irá promover a felicidade humana; avaliar o julgar os efeitos colaterais involuntários e potencialmente desastrosos; verificar e avaliar se esta tecnologia assumirá muito poder em si mesma; se esta tecnologia vai servir o homem ou vai servir-se a si mesma; avaliar a necessidade de moldar novos contratos sociais que abordem os efeitos nocivos para humanidade.

Junho 2019