Cardeal Elio Sgreccia (1928-2019): Cultor da Bioética Personalista Ontológica de Inspiração Cristã

Carlos Costa Gomes1

O Cardeal Elio Sgrccia, Presidente Emérito da Academia Pontifícia para a Vida e figura grada da Bioética, faleceu em Roma, no dia 5 de junho, com 90 anos de idade. Nasceu em 6 de junho de 1928, na cidade italiana de Nidastore di Arcevia, numa família de origem humilde, com uma vida simples e devota. Sgreccia era o mais novo dos seis irmãos.

Dadas as dificuldades, não só familiares, mas também motivadas início da 2ª Guerra Mundial, Elio Sgreccia, antes de entrar o Seminário Menor de Fossombrone, começou por trabalhar no campo, ajudando sua família, tendo iniciado os seus estudos numa escola profissional.

Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1952. A sua primeira tarefa pastoral foi a de assistente espiritual dos jovens da Ação Católica. Posteriormente, foi nomeado vice-reitor no seminário regional de Fano. Obteve a láurea em Letras Clássicas na Universidade de Bolonha e posteriormente nomeado Reitor do Pontifício Seminário de Fano. Em novembro de 1973, assume a responsabilidade pelo do serviço pastoral de professores e estudantes da Faculdade de Medicina e Cirurgia da sede romana da Universidade Católica do Sacro Cuore.

Em 1983 começou a lecionar as aulas sobre questões éticas na biomedicina na Universidade Católica. Em 1985 assume funções como diretor do Centro de Bioética e, em 1992, a direção do Instituto de Bioética, criado na Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade Católica de Sacro Cuore, em Roma. A partir dessa nomeação, torna-se um especialista em problemas éticos na área da medicina.

Nos anos 80, foi o observador da Santa Sé no Comitê de Ética do Conselho da Europa e desde 1990 a 2006 membro do Comitê Nacional Italiano de Bioética. Neste período Assumiu a função de secretário do Pontifício Conselho para a Família.

Como Vice-Presidente, e depois Presidente da Academia Pontifícia Para a Vida (1995-2008) até ao limite da idade estatutária de passar a Membro Honorário, que não permite o exercício de funções, Elio Sgreccia foi o corpo e a alma da Academia Pró Vita,

Em 6 de janeiro de 1993, foi ordenado bispo de Zama por João Paulo II e em 2010 foi nomeado Cardeal por Bento XVI, no Consistório de 20 de novembro.

Autor de uma extensa bibliografia destaca-se, entre os seus trabalhos, o "Manual de Bioética" para médicos e biólogos, traduzido para o francês, espanhol, português, inglês, russo, romeno, búlgaro, ucraniano, árabe e coreano.

Uma autoridade em Bioética
Elio Sgreccia é sem dúvida uma autoridade em Bioética. É se é reconhecido como tal, é-o porque o que escreve e ensina está baseado num espantoso acerco de conhecimentos científicos que recolhe de uma ampla e diversificada bibliografia, com a qual tem convivido ao longo de todos os seus muitos anos de ensino e da prática da Bioética, no Vaticano e no Mundo.

De acordo com Daniel Serrão, também membro Honorário da Academia Pontifícia Para a Vida, Sgreccia organizava sempre em tempo adequado a Assembleia do ano seguinte, ouvindo sugestões dos Académicos sobre temas a tratar e sobre os quais os especialistas a convidar para que a Assembleia não vivesse só dos contributos dos seus Membros

Efetivos e Correspondentes. Dos temas2 que divulgou, destacam-se:
2007 – A consciência Cristã como suporte do Direito à vida;
2006 – O embrião humano na fase de pré-implantação;
2005 – Qualidade de vida e ética da saúde;
2004 – A dignidade da procriação humana e as tecnologias reprodutivas;
2003 – Ética da investigação científica para uma visão cristã;
2002 – Natureza e dignidade da pessoa humana, fundamento do direito à vida;
2001 – A cultura da vida: fundamentos e dimensões;
2000 – Evangelium Vitae. Cinco anos de confronte com a sociedade;
1999 – A dignidade da pessoa que morre;
1998 – Genoma humano, pessoa humana e a sociedade do futuro;
1997 – Identidade e estatuto do embrião humano;
1996 – Evangelium Vitae e Direito;
1995 – A causa da Vida.

De todas estas assembleias foram publicados 13 volumes, em italiano e depois em inglês.

Da sua vasta experiência de difundir a Bioética de inspiração cristã em muitos países, particularmente na América Latina, sentiu a necessidade de recolher todo o seu imenso saber num livro que pudesse servir de manual (Manual de Bioética – Fundamentos da ética biomédica. Tradução portuguesa, 1ª Edição. Cascais: Principia, 2009), para quantos querem difundir a sua Bioética personalista ontológica.

Nenhuma questão, mesmo as mais sensíveis, deixa de ser abordada frontalmente e com recurso à reflexão racional intelectual. Elio Sgreccia afirma logo no início desta obra (p. 39) “seria, a nosso ver, impróprio e inútil para a própria fé negar a legitimidade e a necessidade de uma reflexão racional e filosófica sobre a vida humana, e por isso também sobre a licitude das intervenções no homem por parte do médico e do biológico: vida humana é, acima de todo, um valor natural, racionalmente conhecido por todos os que fazem uso da razão; o valor da pessoa humana é enriquecido pela Graça, mas não deixa de ser para todos, crentes e não crentes, um valor inegável.”

Ao longo do pensamento e da reflexão bioética de Sgreccia encontramos um diálogo vivo entre a fé e a razão que torna a leitura da sua obra muita estimulante para a inteligência de quem lê. O seu ensinamento é seguro, bem fundamentado e claro, num mudo onde os valores humanos e a dignidade da pessoa parecem desvanecidos.

Elio Sgreccia, seguido por muitos cultores da bioética, entre eles os pais da Bioética em Portugal - Daniel Serrão, Walter Osswald, Jorge Biscaia, Luis Archer – apresenta-nos uma bioética personalista enriquecida pelo seu conceito de personalismo ontológico, conceito que emerge do exercício do seu pensamento crítico racional, mas sem nunca perder a abertura à transcendência.

No dizer de Daniel Serrão, que privou da amizade de Elio Sgreccia na Academia Pontifícia para a Vida, ler a sua obra é fundamental para que possamos defender a verdadeira Bioética, a bioética fundada no personalismo ontológico.

Foto: Prof. Daniel Serrão, com Papa João Paulo II e o Cardeal Elio Sgreccia.

 

1 Seguimos neste artigo notas e apontamentos de Daniel Serrão sobre Elio Sgreccia.

2 De todas estas assembleias foram publicados 13 volumes, em italiano e depois em inglês.