Bioética no feminino ou Bioética feminista?

Carlos Costa Gomes, docente e investigador do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, proferiu uma palestra sobre a “Bioética no Feminino ou Bioética Feminista”, a convite da RARAS, uma organização feminina (Sever do Vouga).

Na linha de investigação que o docente está a realizar no horizonte do projeto de investigação “O Contributo do Pensamento Bioético em Daniel Serrão no âmbito da Bioética em Portugal, salientou que uma conceção feminina de identidade pessoal e de relacionamento social tem tido grandes dificuldades para se tornar visível e atuante. Todavia, a ética dos cuidados de saúde é um campo privilegiado para a intervenção da perspetiva feminina e do seu tópico fundamental - o eu constrói-se na relação com o outro. Por isso, no seguimento da linha do pensamento bioético de Daniel Serrão, defendeu uma bioética no feminino, que não é uma bioética feminista.

O docente e investigador esclareceu que uma postura feminista, seja qual for o rótulo que arvore - liberal, radical, psicanalítica, socialista, existencialista, pós-moderna, etc. - destina-se a combater a opressão da mulher, explicando as suas causas e consequências, e a impor decisões políticas que conduzam à libertação das opressões identificadas e, muitas vezes, quantificadas, de que as mulheres são, ainda hoje, vítimas em todas as partes do mundo, sem exceção. Contudo, alertou que uma bioética feminista, como uma bioética machista, seriam instrumentalizações da bioética sem sentido.

Alertou de igual modo para alguns dos mais difíceis problemas dos cuidados de saúde na medicina moderna que estão centrados na mulher e na sua específica capacidade e missão. Referindo, por exemplo, à decisão de abortar, à procriação medicamente assistida e à maternidade de substituição (hoje com a terminologia jurídica de gestação de substituição), em que os aspetos técnicos se cruzam com decisões pessoais, irrecusavelmente imersas no universo ético.
Bioética é ética da vida e a vida acontece, no feminino e no masculino, com a mesma força expressiva e a mesma qualidade. Mas com subtis diferenças que a bioética no feminino tem sabido, elegantemente, descobrir e usar. O evento realizou-se a 19 de maio em Sever do Vouga.

Maio 2019